Sharenting e Direitos da Personalidade

28 de Janeiro de 2026 | Direito de Família
Sharenting e Direitos da Personalidade

Com a popularização das redes sociais, tornou-se comum que pais compartilhem cada detalhe da vida de seus filhos, desde o nascimento até os primeiros passos e conquistas escolares. Essa prática, conhecida mundialmente como Sharenting (união das palavras inglesas share - compartilhar e parenting - paternidade/maternidade), traz à tona importantes discussões jurídicas sobre os limites da autoridade parental e a proteção dos direitos da personalidade da criança e do adolescente.

Embora o ato de postar uma foto pareça inofensivo e repleto de afeto, ele pode gerar consequências permanentes na vida digital do menor, afetando sua privacidade, segurança e até mesmo seu desenvolvimento psicológico futuro.

Abaixo, abordo os principais pontos jurídicos que envolvem essa prática no Brasil:

1. O Conflito de Direitos

O Sharenting coloca em xeque dois direitos fundamentais: de um lado, a liberdade de expressão e o poder familiar dos pais; de outro, o direito à imagem, à privacidade e à intimidade da criança. No ordenamento jurídico brasileiro, prevalece o princípio do Melhor Interesse da Criança, estabelecido pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

      Poder Familiar: Não é um direito absoluto, mas um conjunto de deveres voltados à proteção e educação do filho.
      Direito à Imagem: É um direito da personalidade irrenunciável e intransmissível, pertencente à própria criança, e não aos pais.

2. Riscos Jurídicos e de Segurança

A exposição excessiva pode acarretar riscos que muitos pais não mensuram no momento da postagem:

      Pegada Digital: A criação de uma identidade digital sem o consentimento do menor, que pode causar constrangimentos no futuro.
      Segurança Física: Exposição de rotinas, uniformes escolares e locais frequentados, facilitando a ação de criminosos.
      Uso Indevido por Terceiros: Uma vez na rede, o controle sobre a imagem é perdido, podendo ser utilizada para fins ilícitos ou discriminatórios.

3. Responsabilidade Civil e Consequências Legais

O Judiciário brasileiro já começa a enfrentar casos onde filhos, ao atingirem a maturidade, questionam judicialmente a exposição feita pelos pais. As consequências podem incluir:

      Indenização por Danos Morais: Caso a exposição tenha causado humilhação ou prejuízo à imagem do menor.
      Obrigação de Remover Conteúdo: Determinação judicial para a exclusão de fotos e vídeos das plataformas digitais.
      Intervenção do Ministério Público: Em casos de exposição degradante ou que coloque o menor em situação de risco.

O Papel dos Pais na Era Digital

A orientação não é a proibição total, mas sim o exercício de uma paternidade/maternidade digital responsável. Antes de postar, os pais devem se perguntar: "Meu filho se sentiria confortável com essa imagem daqui a 10 anos?" ou "Essa postagem realmente beneficia o desenvolvimento dele?".

Respeitar a autonomia progressiva da criança e pedir sua opinião (conforme a idade) são passos fundamentais para garantir que o ambiente digital seja um espaço de memórias positivas, e não de violações de direitos.

Se você tem dúvidas sobre como proteger os direitos digitais de seus filhos ou enfrenta conflitos familiares relacionados à exposição nas redes, busque orientação jurídica especializada.

Espero que este artigo tenha trazido uma nova perspectiva sobre o tema!

Grande abraço a todos!

Dr. Romer Carvalho

Dr. Romer Carvalho
Advogado Especialista em Direito de Família
OAB/RJ 148.959